20.10.07

Pobres: próximos e necessários
França, 19.12.2004
dezenove anos, em 1985, um cômico popular chamado Coluche criou uma iniciativa filantrópica chamada Restaurantes do Coração. Por ter sido pobre, e passado inúmeras dificuldades na infância, Coluche inventou uma organização de voluntários para dar de comer aos miseráveis durante o inverno. A operação começou em dezembro, para se confundir com o Natal (época de solidariedade e caridade cristãs, diz-se) e para enfrentar o inverno, que é difícil (a estação nem começou oficialmente e a temperatura à noite é de zero grau).
Restaurantes do Coração foi um sucesso: naquele inverno, foram distribuídos 8,5 milhões de refeições gratuitas. O cômico imaginava repetir a iniciativa dois ou três anos e então encerrá-la. O exemplo estaria dado, e a pobreza seguiria célere rumo ao desaparecimento. Quatro anos antes, em 1981, François Mitterand tinha sido eleito presidente numa campanha eleitoral cujo slogan era “romper com o capitalismo”.
Pois os Restaurantes do Coração não só continuaram como cresceram. No ano passado, eles serviram mais de 66 milhões de refeições. Agora, quarenta mil voluntários participam do empreendimento, que novamente deverá bater o recorde de refeições doadas. É uma maravilha que os franceses estejam cada vez mais solidários e dadivosos, certo?
Nem tanto. Restaurantes do Coração cresceu porque cresceu mais ainda o número de pobres franceses, tanto em termos absolutos como relativos. Em vinte anos, houve governos socialistas e de direita, o país não entrou em guerra, não houve catástrofes naturais de monta, a economia não passou por nenhuma recessão, a produtividade aumentou, a tecnologia foi incrementada, o PNB subiu – e a pobreza só fez crescer.
Para uma população de 60 milhões de pessoas, quase quatro milhões vivem abaixo da linha de pobreza, que é definida pela renda mínima mensal de 580 euros (cerca de 2 mil reais) por pessoa. Um milhão dos pobres oficiais são crianças. Mais de três milhões de franceses moram em habitações inadequadas. O número de pessoas que recebem a renda mínima passou de 400 mil, em 1988, para 1,2 milhão hoje. Há 170 mil famílias com endividamento crônico – o que faz com que os despejos por falta de pagamento do aluguel sejam proibidos durante o inverno. São 86 mil os sem-teto, os que moram na rua.
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A França, apesar desses números vexaminosos, é um país rico. Um dos mais ricos, na verdade. Mundo afora, a situação piora bastante. A Unicef informa que, dos dois bilhões de crianças do planeta, um bilhão é pobre. Mais de 640 milhões não têm moradia conveniente; meio bilhão não têm acesso a instalações sanitárias; 400 milhões não bebem água potável; 90 milhões são desnutridas etc, etc, etc.Por quê?
Porque os pobres são necessários.
Esses últimos vinte anos foram o do fim do comunismo, que terminou de maneira abrupta na União Soviética e no leste da Europa, e vem terminando aos trancos e barrancos na China. Nos países subdesenvolvidos, como o Brasil, o receituário do capital foi seguido à risca: privatizações, desmonte do Estado, desregulamentação. O capitalismo se espalhou e se radicalizou. Os tempos de globalização triunfante, de expansão do mercado, não provocaram prosperidade. Provocaram o seu contrário: miséria e pobreza.
Provocam guerras, também. Guerras diferentes das do passado. Dos 59 conflitos que aconteceram entre 1990 e 2003, 53 foram internos, dentro de fronteiras nacionais. As guerras foram internalizadas, mantidas longe dos países ricos. Longe, os miseráveis se matam.
Como não há alternativas políticas ao capitalismo, é compreensível que as atividades caritativas e benemerentes tenham aumentado. De certa forma, elas canalizam, e controlam, o desencantamento com o estado geral da sociedade, com o número crescente de pobres. Daí a proliferação das organizações não-governamentais. Nelas, o indivíduo que quer fazer algo para ajudar o próximo, ou quer tentar resolver um problema social específico, pode se expressar. O que significa, por vias tortas, fazer política: as ONGs são financiadas por empresas ou por entidades que representam o grande capital (FMI, Banco Mundial, União Européia etc). Elas são instrumentos do capital para garantir a perpetuação da ordem estabelecida.
Só um exemplo: essas procissões cariocas onde a classe média se veste de branco e vai para a rua pedir “paz”. Em vez de organizar um assalto ao Palácio Guanabara, e exigir (sob pena de enforcamento sumário) que o governante de plantão garanta a segurança pública, pois essa é a função do Estado, ficam lá eles, posando para as câmeras de televisão, fazendo o papel de valorosos cidadãos. Com esse estratagema, o Estado é enfraquecido e as consciências culpadas se reconfortam.
Na França, não há nenhum grande partido, ONG, organização filantrópica, igreja, o que for, que se proponha a acabar com a pobreza. A fazer com que os pobres deixem de ser pobres. Todas elas defendem o modelo de organização social tal como ele é, estruturalmente: capitalista, baseado na propriedade privada, na existência de classes que oprimem e são oprimidas. Na França e em todo o mundo é assim. No Brasil também. Numa versão um pouco piorada.

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Há alguns anos, Betinho lançou a campanha do Natal Sem Fome. O objetivo era mais modesto que o dos Restaurantes do Coração: fazer com que durante apenas um dia, o do Natal, não houvesse fome. A campanha foi muito bem um ano. Talvez dois. Houve vozes compungidas na televisão. Grandes empresas aproveitaram para fazer marketing social. No Natal seguinte a idéia sensibilizou menos gente. Poucos anos depois, estava sepultada.
O Natal sem Fome de Betinho foi retomado, com estardalhaço, pelo governo Lula, no programa Fome Zero. Que não foi adiante. O que configura o pior dos mundos: um governo que se empenha em manter a fome; numa sociedade onde a filantropia inexiste.
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É difícil ver pobres em Paris. Não há crianças nos cruzamentos, sujando os pára-brisas. Ou garotos fingindo de malabaristas. Ou famílias inteiras jogadas no chão. Ou favelas, cabrochas, barracões de zinco sem telhado pertinho do céu. No máximo, um ou outro albanês ou romeno no metrô.
Como não vou às periferias bravas, onde estão os conjuntos habitacionais atulhados de imigrantes, tenho de me contentar com os clochards, os vagabundos. (O termo não é politicamente correto, reconheço. Mas o politicamente correto não existe na França. Ninguém vai na “mercearia”; vai-se, isso sim, ao “árabe”.) O clochard é um típico específico de pobre: ele é o bêbado, o doido – alcoólatra, doente mental, para voltar ao politicamente correto.
O clochard costuma viver na rua. Dorme sobe papelões, enrolado em cobertores imundos, cercados por garrafas de vinho. Costumam andar com carrinhos roubados de supermercados, repletos de sabe-se lá o quê. Eles só pedem moeda ou cigarro aos passantes. O clochard é uma criatura dos bairros. No boulevard Saint-Marcel, há dois. Um é militante: vende o jornal dos SDF (sem domicílio fixo). O outro é um rapaz de bastos bigodes, bem apessoado, que está sempre com um cachorro. No boulevard de l’Hôpital há outros dois. Um é doido de pedra, fala alto consigo mesmo, grita, dança. A Lina comentou uma vez: “le monsieur est très bavard”. O outro tem um defeito na mão e pede cigarro mesmo que esteja fumando. Na avenida dos Gobelins, há duas mulheres. Uma dorme em cima de um tubo de escapamento do metrô, para se esquentar. A outra, tal e qual celebridades brasileiras, está sempre de óculos escuros, mesmo à noite.
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Talvez no Brasil seja mais difícil ainda ver pobres. Nos acostumamos a eles? Nos acostumamos ao sofrimentos deles? Pelo jeito, não. Tanto que, dado o temperamento nacional conciliador, sestroso e brejeiro, o que tem de pobre sendo fuzilado e queimado é uma enormidade. Principalmente em São Paulo. Meu filho perguntou há pouco se eu lembrava de um clochard nosso conhecido (de vista) que fazia ponto numa praça perto da igreja dos dominicanos, nas Perdizes. Era barbudo, cabeludo, corria atrás de carros, gritava. Claro que eu lembrava. Pois é: tomou três tiros numa noite dessas e morreu.

Fonte: Um brasileiro anônimo em Paris.

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