EUROCENTRISMO
Economia, Administração e Comércio
No que se refere ao desenvolvimento econômico, a capacidade de inovação da Europa cresceu de forma gigantesca a partir do Renascimento. Graças a isso, os europeus se tornaram senhores do mundo. Dominaram algumas culturas, destruíram outras e se impuseram a todas. A civilização européia passou a ser o modelo para o planeta e conseguiu, pela primeira vez na história, a unificação do mundo, que se ligou por laços econômicos cada vez mais estreitos. O processo se expandiu primeiramente graças à navegação impulsionada por portugueses e espanhóis, continuou a progredir e aparentemente não terá fim, a não ser que um desastre imprevisível mude radicalmente as condições de existência dos seres humanos sobre o planeta.
A revolução industrial, iniciada na Grã-Bretanha no século XVIII e logo propagada à Europa continental, transformou um punhado de pequenos países do extremo oeste da Europa no principal centro de riqueza mundial e no pólo inovador da tecnologia moderna. Economicamente, a Europa era o centro, e o resto do mundo, a periferia.
Ao longo do século XIX, uma nação recém-nascida, que estendia à costa leste da América do Norte a mentalidade européia mais progressista da época, se uniu ao velho continente na corrida do desenvolvimento econômico. As duas guerras mundiais do século XX sacudiram duramente o continente europeu e permitiram que os Estados Unidos se transformassem no núcleo central do sistema econômico mundial e deslocaram a Europa para o segundo lugar na corrida do desenvolvimento.
Nas últimas décadas do século XX, o principal impulso de inovação e crescimento econômico abandonou o Atlântico norte -- Europa ocidental e a costa leste dos Estados Unidos -- e se deslocou progressivamente para o Pacífico: as indústrias de ponta em inovação tecnológica, principalmente a eletrônica, convergiram para a costa oeste dos Estados Unidos e para o leste asiático. O estreito território das ilhas japonesas concentrava, no fim do século, uma extraordinária porção do poderio econômico mundial. O núcleo japonês estendeu seu exemplo a outros países do leste asiático -- Coréia, Hong Kong, Tailândia e Cingapura -- e os velhos países industriais da Europa passaram a observar, com crescente preocupação, como o mais importante eixo de trocas internacionais já não era a rota do Atlântico norte, mas sim a do Pacífico norte. No mundo capitalista, os dois grandes pólos econômicos, Estados Unidos e Europa ocidental, transformaram-se em três, com a ascensão do Japão.
Em contraste com os países do centro -- desenvolvidos, industriais, produtores de tecnologia, detentores de alta renda per capita e controladores das finanças e dos fluxos econômicos mundiais -- situam-se os da periferia. Quase todas as nações periféricas são antigas colônias que conquistaram a independência política, mas que em sua maioria não foram capazes de transformar as economias tradicionais. Na dura corrida do desenvolvimento econômico, esses países estão em último lugar. Os problemas econômicos que os afligem são muito mais claros que os dos países "centrais": não se trata de conseguir estar na dianteira do desenvolvimento tecnológico, mas sim da urgente necessidade de conseguir alimentar adequadamente a população.
As regiões periféricas eram povoadas, em maior ou menor densidade, quando os europeus a elas chegaram. Nelas existiam culturas e civilizações muito variadas: algumas desconheciam a escrita e se encontravam em estágios culturais primários, outras possuíam uma velha tradição de cultura escrita e uma longa história. A característica comum a todas elas, do Marrocos à China, e do México a Madagascar, era o modo de produção pré-capitalista. O contato das vigorosas economias capitalistas européias com as sociedades pré-capitalistas do resto do mundo produziu sistemas econômicos heterogêneos, caracterizados pela coexistência de um setor moderno, produtivo, capitalizado, voltado para os grandes mercados, e outro setor tradicional pré-capitalista, alheio a conceitos como maximização de lucros e à aplicação de inovações tecnológicas ao processo produtivo.
Nessa dualidade da economia está situada a origem do subdesenvolvimento. A persistência do fenômeno, no entanto, não pode ser creditada somente a causas remotas. A divisão do mundo em países industrializados, de um lado, e agro-exportadores, de outro, perpetuou o estado de subdesenvolvimento dos que se dedicam à produção de alimentos e matérias-primas. Por um perverso mecanismo imposto pelos países ricos ao mercado internacional, os produtos industrializados são sempre proporcionalmente muito mais caros que os produtos primários. Além disso, o atraso é excelente negócio para países altamente industrializados que desejam escoar produtos obsoletos e rejeitados por seu próprio mercado interno.
A maior parte dos países "jovens", tanto os que conservaram o modelo econômico capitalista como os que adotaram modificações mais ou menos radicais de caráter socialista se lançaram numa perseguição do modelo industrial e urbano dos países centrais. Seus dirigentes, com freqüência educados nas antigas metrópoles, queriam seguir a qualquer preço o caminho do desenvolvimento industrial trilhado no passado pelos países centrais. Os recursos de que dispunham, no entanto, não se prestavam muito a esse empreendimento: a abundância de mão-de-obra de baixa qualificação técnica e a escassez de capitais exigiam um modelo de desenvolvimento diferente do praticado, que dependia de capital e de tecnologia que permaneciam reféns dos países desenvolvidos. A partir da década de 1950, multiplicaram-se os empréstimos das instituições internacionais aos países pobres, o que se por um lado lhes forneceu recursos para o desenvolvimento, também deu origem a gigantescas e impagáveis dívidas externas.
O fracasso da industrialização forçada em alguns países periféricos impulsiona os economistas e sociólogos a buscarem um novo modelo de desenvolvimento diferente dos que até agora foram tentados. A industrialização não pode ser injetada numa sociedade tradicional sem provocar resistências e grandes sofrimentos humanos. É preciso encontrar formas de aumentar o bem-estar e a satisfação das necessidades essenciais da população dos países periféricos baseadas na geração de recursos próprios, provenientes da cultura tradicional de cada país.
Não é produto do acaso o êxito econômico obtido por algumas nações do leste asiático, que conseguiram associar as instituições econômicas modernas a sociedades de tradição fortemente comunitária e com uma poderosa organização social que data de muitos séculos. Embora os economistas tenham sido, durante várias décadas, incapazes de imaginar uma política de desenvolvimento alternativa, é cada vez mais firme a certeza de que os países periféricos não devem seguir cegamente o caminho dos países centrais, nas versões capitalista ou socialista, mas sim tratar de encontrar seu próprio caminho.
A dinâmica do desequilíbrio centro-periferia que caracterizava o sistema econômico mundial no final do século XX ameaçava aumentar mais ainda as diferenças entre os seres humanos de acordo com o ponto do planeta que habitassem. Enquanto o crescimento demográfico dos países periféricos era incomparavelmente maior que o dos países centrais, o aumento do produto interno bruto dos países desenvolvidos era globalmente muito superior ao dos subdesenvolvidos. Em muitos destes últimos, o produto por habitante, longe de crescer, diminuía.
No passado, a falta de meios de comunicação evitava que a fome que assolava uma região incomodasse os habitantes do resto do planeta. No final do século XX, porém, num mundo em que as atrocidades cometidas num continente eram exibidas ao vivo pela televisão ao público de outro, a distância econômica crescente entre centro e periferia representava não só um escândalo moral, mas também um perigo para a humanidade. A necessidade de diminuir as desigualdades foi aceita com relutância pelas classes privilegiadas de todos os países, mas pouco a pouco se criaram organismos internacionais com a missão de promover um desenvolvimento mais eqüitativo da economia mundial. Grande parte do trabalho, porém, está para ser feito, e os resultados são ainda muito discretos. Preconceitos e egoísmo, corrupção e jogos de poder geram forte resistência a uma nova ordem econômica internacional mais justa.
20.10.07
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